Pixação instigante

02abr09

Mais um dia na irriquieta São Paulo! Misturada com grafites, poluição, pessoas e trânsito, eis algo que surge e praticamente grita para mim, chamando toda a atenção dos meus olhos. Na saída do Viaduto Okuhara Koei, sentido Avenida Doutor Arnaldo, vejo uma pixação, no mínimo, curiosa. Tentei tirar uma foto, mas o ônibus foi mais rápido que o obturador (prometo tentar e, assim que conseguir, postar aqui a tal foto). A famigerada frase gravada na mureta era: “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”.

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”.  Apesar de tê-la repetido o dia todo para não esquecer, esta frase ainda provoca uma reação de paralisia em mim. Fiquei impressionada em perceber como tal frase sintetiza todo um período histórico e situação social em tão poucas palavras. Não é maravilhosa?! Talvez como futura jornalista eu esteja forçando a barra, mas é isso que eu sinto!

Fiquei um bom tempo pensando sobre o que comentar a respeito; não por escrever algo “politicamente correto”, mas sim por tentar absorver o torpor que estou tomada mais uma vez. Estar submetido a um camburão significa estar algemado, no espaço do carro que não é originalmente destinado para pessoas, ser vigiado por pessoas com algum tipo de poder maior que o seu (no caso, armas de fogo) para, no final da viagem, ser submetido a julgamento e regime carcerário. Os escravos nos navios negreiros, como Castro Alves não nos deixa esquecer, eram acorrentados de formas torturantes, carregados em imundos porões de navios, subjulgados pelos marinheiros e senhores de escravos, para, se sobrevivessem, serem submetidos a toda uma vida de abusos e trabalhos forçados.

Não importa se a pessoa que está no camburão é ou não culpada por estar lá. Não estou defendendo os acusados que são presos, mas simplesmente não importa. A situação realmente é, em muitos aspectos, similar a temível viagem dos escravos africanos. E vocês, prezados leitores, parem e reflitam sobre a frase. Afinal, o que pensam desta pixação?!

É com satisfação que constato: a cada dia descubro um novo universo nesta imensa Paulicéia Desvairada!

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4 Responses to “Pixação instigante”

  1. 1 Isabel

    Ju!!
    Nunca tinha pensado no camburao por esse lado, mas realmente nem muitas coisas que se assemelham a um navio negreiro, para começar as pessoas sao tratadas como animais, traam-nos como se nao tivessem alma igual aos escravos naquela época. Por mais que alguns cometam crimes ediondos, ainda são seres humanos e devem ser tratados como tais.
    Adorei seu texto.
    Beiijo

  2. 2 Felipe

    Quanto conteúdo! Boas associações meu amor. =]
    Eu acho mais complicado gravar o nome do tal viaduto do que esta “complexa” frase. Confesso que é difícil fazer qualquer tipo de julgamento em relação aos presos. Às vezes nós os odiamos e temos vontade exterminá-los, tratando-os como pessoas inferiores. Mas por outro lado, não é agindo dessa forma que iremos ajudar a sociedade evoluir, afinal todos merecem uma segunda chance (só alguns vai).
    Obs.: Não reclama que você não conseguiu a foto, pelo menos o seu ônibus estava rápido!
    Ótimo texto!
    TE AMOOO

  3. 3 Gabi Locks

    Juu! adorei essa sua nova criação (o blog)! Se você quiser posso divulgá-lo no meu orkut e no boca-a-boca!
    Agora em relação a essa texto, juro que você me deixou no mínimo em conflitos de idéias e ideologias.
    Por um lado mais humanista, também acredito que de muitas maneiras somos tratados e algumas vezes tratamos alguns membros de nossa sociedade talvez não como animais, mas como seres humanos alheios à nossa realidade, inexistentes, o que para mim é pior do que qualquer tipo de tratamento. Afinal, ninguém quer ser destinado ao equecimento e ao desprezo.
    Mas por outro, já em uma visão legalista (não poderia deixar de colocá-la, tive aula de penal ontem), se você ouvisse os casos que eu ouço da minha professora (que foi delegada por 12 anos), com certeza diria que o camburão é mais do que muita gente merece. Aliás, se um dia você tiver curiosidade, eu te mostro como o nosso Código Penal é pró-réu, só como exemplos: o indivíduo só poderá ser preso depois do trânsito em julgado, ou seja, a sentença (a dona da Daslu não poderia ter ido pro xadrez) e o preso seja em qualquer penitenciária tem a possibilidade de trabalhar, caso ele aceite, a cada 3 dias trabalhados diminui 1 de pena e além disso possuí todos os benefícios previdenciários.
    E só para deixar uma questão polêmica e que é verídica: há 10 anos, nas salas (normalmente possuem 14 pessoas) de mestrado e doutorado em direito da puc-sp, todos os alunos (juízes, desembargadores, promotores…) eram contra a pena de morte, ou seja, 100%. Atualmente, esse índice diminuiu em 50%.

    Bom ju..acho que já escrevi demais!
    pode ter certeza que acompanharei esse blog e sempre que possível comentarei!

    Se cuida!
    bjaoo

  4. 4 Zé Luiz

    Julia, querida, nunca imaginei na minha que chegaria um dia na qual eu comentária um post seu!! Essa é, sem dúvida, uma grande dádiva e me sinto muito orgulhoso por estar aqui e por você. Parabéns e lembre-se que blog é como filho: temos de acalentar todos os dias!
    Com relação ao tema proposto, o grande problema é que todos nós atribuímos culpa a quem anda no camburão, atribuindo uma carga negativa: “se anda de camburão, bom sujeito não é”; quando, muitas vezes, quem deveria andar na traseira do camburão está instalado atrás de volante.
    beijos, te amo Zé


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